Linha de pensamento
09/05/2010
Escrever é riscar e riscar é traçar uma linha. Claro que escrever pode ser e é muitas outras coisas. Mas basta saber, agora, que é riscar e inevitavelmente traçar linhas.
Esses dias, a minha supervisora no estágio da bienal, ao discutir experiências de mediação, falou sobre o trabalho da Mira Schendel, mais especificamente de um que não vou saber descrever agora. Na sua fala, ela lembrou do que tinha lido no livro organizado pela Sonia Salzstein, “No Vazio do Mundo”, e disse da ligação entre linha, risco, desejo e vontade.
Depois disso eu lembrei de um curso de arte-educação que eu fiz ano passado e que, em um dos dias, a orientadora falou sobre a natureza da linha e do significado dela e de como ela consiste um limite.
Bem, é claro que uma linha não é só uma linha, mas também… Pode ser só uma linha e conter tudo que uma simples linha contém, que é um mundo inteiro. Não me admira voltar a falar de linha aqui. Tenho claro pra mim que ela é um ponto-chave da minha história poética e um elemento com o qual eu busco me relacionar em vários momentos, do desenho à costura.

A linha consiste em desejo e isso pode parecer muito claro para alguns. Desejo e design têm vínculos etimológicos que inferem desígnio e, portanto, intenção, vontade e isso pode ser remontado desde a pré-história, com as marcações rupestres, até hoje. Na esfera do abstrato, do imaginário e simbólico, a linha determina um limite invisível, uma moral e uma ética. Ela tem o poder de estabelecer lados, caminhos e curvas.
Escrever, logo, é riscar um limite, criar lados, rotas, desejos. Além do âmbito verbal, comunica-se tudo isso através das características do traço. Não quero entrar na discussão do real/virtual, mas escrever em um blog, de certa maneira, subverte a concepção de desejar ao escrever. Substitui-se a ideia de risco por um apertar de botões. Sensorialmente isso é completamente diferente e com certeza possui algum efeito igualmente distinto.
Eu gosto de desejar. Gosto de traçar minhas linhas, de riscar palavras, de perceber meu traço fugindo de mim e retornando obedientemente. Por isso a necessidade de escrever. Eu havia deixado essa atividade de lado já tem um tempo e sempre busquei retomar um certo ritmo. O blog [meu blog pessoal] é uma tentativa disso: já que passo (passava) grande parte do tempo em frente ao computador, por que não tentar explorar isso a meu favor e não o contrário?
Contudo, a ideia não deslanchou como eu gostaria. Eu já cheguei a ficar mais preocupado com a popularidade do blog e com o número de leituras e comentários do que com a ideia de escrever. O blog e a internet têm esse poder de ser público. A ideia de que isso está aqui para quem quiser ler leva a pergunta de “quem está lendo e o que está achando?”. Isso é suficiente para me deixar curioso e clicar no botão refresh incansavelmente. Além, é claro, de censurar muito do que eu escrevo, ou até mesmo escrever coisas das quais me arrependo de serem públicas .
Com isso, a natureza deste blog obviamente se adaptou – e eu acredito que isso ocorreu sem que eu tivesse consciência – tornando-se mais uma centralização de divulgações como as atualizações de projetos, sites etc. do que um exercício de escrita, reflexão e desejo.
Acho que vocês entendem onde eu quero chegar. Quero retomar a atividade de desejar. Me propus a fazer um caderno amanhã de manhã (não que me faltem cadernos e bem bonitos, por sinal. Agradeço os presentes) para que o desejo comece daí e então usá-lo para escrever. Sempre.
Isso é diferente do simples diário. É um escrever corrente. Um escrever sem cancelas, um desejo sem amarras nem nada que censure. Desejo desejar tudo que puder, sempre que puder. Quero desenhar palavras, coisas, delinear manchas para, então, traçar a minha linha de pensamento, entender minhas vontades.
Acho que deve ser saudável. Recomendo.
Sorry I’m Late
18/04/2010
Great stop-motion by Thomas Mankovsky, a London-based creative/director. Check his work out.
A stop motion short film shot with a stills camera in the ceiling pointing straight at the floor. There’s tons of ‘making of’ stuff at the website sorry-im-late.com
Nada no Escuro
21/03/2010
nada no escuro
no negro dos olhos
mexe-se lá e dança
obscuro
no negro buraco
obscuro
não se seca o do
outro sem saber
não se sente negro
sem saber – nada
não nada.
ninguém nada sem
saber-se obscuro.
Paulo Delgado
Linha de Horizonte
16/03/2010
“Os olhos são ondulados pela linha de horizonte que pula, salta e rodopia o traço de uma paisagem. A paisagem abraça um corpo por inteiro. Sem arestas, a linha de horizonte corre o mundo à nossa volta, acordando paisagens adormecidas e ocultas.
“Linha de horizonte intocável feito estile riscando espaços.
“Onde anunciar seu ponto de chegada? Onde iniciar seu ponto de partida? Quero alcançar e agarrar esta linha impalpável. Tal como uma lâmina incandescente, a linha de horizonte cinde as superfícies que delineia. Linha mutante que adere, modela e se impregna dos montes serrilhados, dos vales em U, das planícies descampadas, das florestas rebuscadas, dos oceanos abismais, dos desertos movediços, das cidades inventadas, das paisagens.
“A linha de horizonte surge nitidamente pela luz de um amanhecer, se dissolve na atmosfera chuvosa, mergulha na água continental, liquefaz a bruma de uma tarde, aterrissa na opacidade da terra firme, imagina vazados por detrás de massas e volumes, ampara geometrias sólidas do habitar.
“Da linha de horizonte a paisagem emerge sustentada por um fio sutil.
“A linha de horizonte, sem ponto de chegada nem ponto de partida, sempre aporta e inicia algum lugar. Basta o olho pousar sobre suas costas onduladas para, em qualquer, instante, inscrever-se no tempo de um lugar.
“A linha de horizonte, traço inventado pela nossa visão, não existe. a quem pertence: ao céu? ao mar? à terra?
“Por um viés, a linha de horizonte delimita o encontro do céu com a terra, nos proporciona um abrigo sob tal imensidão. Por um viés, a linha de horizonte conjuga o que está acima com o que está abaixo de nós. Por um viés, a linha de horizonte se estende pelas intersecções entre os espaços de ascensão e queda. Deste encontro, topológico,, a linha de horizonte esconde e apresenta, em sua condensada negritude, uma fresta para o infinito, fresta por onde tudo se esvai.
“(…) O ato criador alimenta uma natureza similar. A natureza do ato criador, com seus intermináveis portos de chegas e de partida, materializa uma pontuação indefinível: linha intensamente infinda com ritmos e intensidades, tônicas e cadências, dissonâncias e concordâncias inimagináveis até o momento em que ela acentua um peso e tonifica uma paisagem.
“(…) A paisagem da criação é um lugar tão próximo quanto distante em nosso cotidiano. O horizonte da criação nos contém em tudo o que fazemos em tudo o que somos.”
In: DERDYK, Edith. Linha de horizonte: por uma poética do ato criador. São Paulo: Escuta, 2001. p9-11.
Get it moving on
20/12/2009
It’s been almost two months since I last dropped by, but the year’s been hell. However, I came across some wonderful material this last couple of months and I intend to post it as soon as I get their pictures. Alongside the pictures, it is likely for them to be gathered into an exhibiition in March or April of 2010, so it may take a while, but it’ll definitely be here.
Until then, I have some stuff that I’ve been collecting for some time now and I wish to show it to you.
“Silent before the storm” from Magda Kaczmarek; "Cold wings", Krzysztof; "X", Michal Huštaty; "Winter", Elena Kalis; and "… Is Just", Francisco.
The Half of Eat(en)
24/10/2009
A series of illustrations I made for a chapter of “To the left of the father”. The top one was made using ink and gouache, the following two are digital manipulations of the first one.
The Inner Collection
10/08/2009
O que encontrar dentro e que caminhos tomar para chegar lá? Normalmente, traçamos todos os aspectos humanos com os quais podemos nos identificar para que possamos passar a ver o objeto representado como um de nós. Isto posto, costumamos a nos relacionar com a obra associando-a não apenas com traços humanos, mas também à características da humanidade. Consideramos vários aspectos – de personalidade até gostos pessoais – de modo que isto torne-se ele ou ela. Isso pode ser observado não apenas neste campo da vida e da arte, mas deve ser considerado: humanizamos a imagem representada para que possamos entendê-la e para anular qualquer possibilidade de ameaça – associada ao que parece imprevisível e desconhecido.
À famosa citação de Sun-Tzu: “mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto” devemos adicionar o fato de que, amigável ou não, grande parte dos nossos inimigos pertence a nós mesmos e podemos nos relacionar com ela se seguirmos a lógica descrita acima. Mas o que torna tudo incerto? Nunca saberemos o que há dentro e isso pode vir a ser a nossa ruína.
The Inner Collection vem aqui pelo fato de que sempre desejamos relacionar-nos com a figura humana, mas esquecemos que o que nos torna e torna também as imagens representadas… nós mesmos!, é o que há dentro. Nossa essência é o que guardamos dentro. O que fazer para chegar lá?
What to find within and which means to take in order to do it. We commonly trace all human aspects that we can identify ourselves with so that we can allow ourselves to see the object depicted as one of our own kind and nature. That settled, we tend to make contact by establishing in the figure in front of us traces not only of the human species, but of humanity as well. We consider many aspects – from personality to likes and dislikes – so that it becomes a he or she. This can be observed not only in this portion of life and art, but it must be taken into account: we humanize the theme and figure depicted in order to understand it and annul the possibility of threat that is attached to all things that seem unpredictable and unknown.
Regarding the famous Sun-Tzu’s saying “keep your friends close, and your enemies closer”, we should add the notion that friendly or unfriendly, most of our enemies belong to ourselves and we can relate to, if we follow the logic described above. But what makes it all quaky? We’ll never known what’s within and that’s just what might be our downfall.
The Inner Collection stands here for the fact that we always hope and hoped to relate and get to know the human figure, but we forget that what makes us and the ones depicted… well… us!, is what’s within. Our cornerstone is what we keep inside. What to do to get there?
Curadoria/Curatorship: Paulo Delgado
Obras apresentadas/Presented works
“Frace”, Alex Salb; “Rhino Baby and Mother”, Mike; “A Forest Alternate”, ~HisHalfElf; “A stranger. Matheo 24”, Benoit Paille; “Ety”, Valeria; “Face it”, Bob; “Away we go”, Jenna; “Monk”, Grzegorz Szczerbaciuk; “Rimbaud”, Rodrigo Calafange; “Lie”, John Berd; “Oe”, Valeria.
Projeto Canastra – Peça-jogo
06/08/2009
“Inspirado no lúdico e competitivo universo dos reality shows, Projeto Canastra trata-se de uma peça inacabada, configurada como um processo que se constrói em conjunto com o público, do qual as escolhas exercem total interferência na composição da obra. Ao final da apresentação, cada espectador vota em qual ator-jogador deverá ser descartado, como num jogo de baralho. O escolhido pela maioria da platéia abandona o espetáculo até o final da temporada.
Projeto Canastra surge como uma maneira experimental inovadora de se obter um alto grau de performatividade do elenco e de interatividade com público. A peça-jogo é derivada da pesquisa “Cena Mutável”, realizada por Spinelli desde 2006. Explicitar o tempo presente co mo característica fundamental da forma teatral, utilizar o espaço da cena como campo de possibilidades recombináveis, aproveitar-se de mecanismos de acaso e situar os atores e público num plano de “imprevisibilidade controlada”, são algumas das premissas da pesquisa presentes no Projeto Canastra.
Com direção de Diogo Spinelli e dramaturgia de Catarina São Martinho, Um Coletivo de Artistas Europeus apresenta “Projeto Canastra – Peça-jogo”, em cartaz na sala Alfredo Mesquita do Teatro Laboratório CAC-ECA-USP (Av. Professor Luciano Gualberto, Travessa J, nº 215, Cidade Universitária – São Paulo), de 08 a 30 de agosto, aos sábados às 21h e aos domingos às 20h30. A entrada é gratuita e os ingressos são distribuídos com uma hora de antecedência.
Conheça os atores-jogadores, as regras do jogo e saiba o que está acontecendo nos bastidores no blog da peça e na comunidade no Orkut.”
PROJETO CANASTRA – PEÇA-JOGO
De 08 a 30 de agosto
Sábados às 21h e domingo às 20h30
Entrada gratuita (retirar o ingresso com uma
hora de antecedência)
http://projetocanastra.blogspot.com/
Teatro Laboratório CAC-ECA-USP
sala Alfredo Mesquita
Av. Professor Luciano Gualberto, Travessa J,
nº 215, Cidade Universitária – São Paulo
(11) 3091-4375 / 3091-4376
Capacidade para 125 pessoas
Estacionamento gratuito no local
Mia-o!
19/06/2009
All works of Mia Calderone: "Clímax", "Dirt", "Erotica Insertion", "Not my problem", "Rehearse me in your passion" and "Don’t you kiss me".
The nude theme: Funeral, by Mikel Marton
07/06/2009
It’s such a good feeling when you find a great work. And even more, when you find a great artist.
I believe that among the most difficult branches of art there is the nude figure. Be or not portraying your style of representation, the nude figure offers something that goes beyond prejudice; when you see a photograph that portrays some miserable, dying or subhuman theme, you get touched, you get impressed but you still find it beautiful.
When we talk about nude themes, it’s plausible that we get impressed, find it beautiful and get touched. The question here lies when this touch gets physical. I’m not saying it’s wrong, damn no. All I’m saying, not getting to the label complex here, is that nude art is often mistaken automatically for erotic art, while these two aren’t always and necessarily together. Something that should get to our attention is that the nude is still quite underestimated art-wise, it is often seen as some last resource, some sort of appeal or shortcut to impress the viewer.
For that, not ignoring other delicate themes, I believe that the nude, portrait or not, is still one of the most difficult themes to be explored. It must not only surpass taboos, but it must also surpass the fact that it is a depiction of the human figure, and by that we enter the mysterious field of the identification between viewer and theme depicted. Both these obstacles are filled with prejudice that must be taken in account and that helps nude art at it’s wholeness, erotic or not, to be one of the most difficult subjects, styles and branches of art.
That is why it’s such a good feeling when you find a great nude work. And even more, when you find a great nude artist. Going through my personal virtual collection, I came across a series of 3 pictures that deserve some space here at Touche Pas.
The artist Mikel Marton associates his Funeral series, that was [auctioned and raised over $1,000 USD for emergency AIDS funds for the AIDS services of Austin, Texas], with this three-verse text:
Each second, a funeral to our former selves.
Celebrating our youth, ephemeral.
Death’s Spring-time.
What do you think about the nude art?
June 7th, 2009. peve

