Linha de Horizonte

16/03/2010

“Os olhos são ondulados pela linha de horizonte que pula, salta e rodopia o traço de uma paisagem. A paisagem abraça um corpo por inteiro. Sem arestas, a linha de horizonte corre o mundo à nossa volta, acordando paisagens adormecidas e ocultas.

“Linha de horizonte intocável feito estile riscando espaços.

“Onde anunciar seu ponto de chegada? Onde iniciar seu ponto de partida? Quero alcançar e agarrar esta linha impalpável. Tal como uma lâmina incandescente, a linha de horizonte cinde as superfícies que delineia. Linha mutante que adere, modela e se impregna dos montes serrilhados, dos vales em U, das planícies descampadas, das florestas rebuscadas, dos oceanos abismais, dos desertos movediços, das cidades inventadas, das paisagens.

“A linha de horizonte surge nitidamente pela luz de um amanhecer, se dissolve na atmosfera chuvosa, mergulha na água continental, liquefaz a bruma de uma tarde, aterrissa na opacidade da terra firme, imagina vazados por detrás de massas e volumes, ampara geometrias sólidas do habitar.

“Da linha de horizonte a paisagem emerge sustentada por um fio sutil.

“A linha de horizonte, sem ponto de chegada nem ponto de partida, sempre aporta e inicia algum lugar. Basta o olho pousar sobre suas costas onduladas para, em qualquer, instante, inscrever-se no tempo de um lugar.

“A linha de horizonte, traço inventado pela nossa visão, não existe. a quem pertence: ao céu? ao mar? à terra?

“Por um viés, a linha de horizonte delimita o encontro do céu com a terra, nos proporciona um abrigo sob tal imensidão. Por um viés, a linha de horizonte conjuga o que está acima com o que está abaixo de nós. Por um viés, a linha de horizonte se estende pelas intersecções entre os espaços de ascensão e queda. Deste encontro, topológico,, a linha de horizonte esconde e apresenta, em sua condensada negritude, uma fresta para o infinito, fresta por onde tudo se esvai.

“(…) O ato criador alimenta uma natureza similar. A natureza do ato criador, com seus intermináveis portos de chegas e de partida, materializa uma pontuação indefinível: linha intensamente infinda com ritmos e intensidades, tônicas e cadências, dissonâncias e concordâncias inimagináveis até o momento em que ela acentua um peso e tonifica uma paisagem.

“(…) A paisagem da criação é um lugar tão próximo quanto distante em nosso cotidiano. O horizonte da criação nos contém em tudo o que fazemos em tudo o que somos.”

 

In: DERDYK, Edith. Linha de horizonte: por uma poética do ato criador. São Paulo: Escuta, 2001. p9-11.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.